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Pequenas empresas precisam investir em IA para além da área de vendas, dizem especialistas

Adoção da IA alavanca empresas, mas ainda falta visão estratégica no uso da tecnologia

A revolução da inteligência artificial já chegou aos pequenos negócios? Os números da Unidade de Gestão e Estratégia do Sebrae Nacional indicam que a resposta é um copo meio cheio. Ou meio vazio, a depender do ponto de vista.

Enquanto mais de 80% dos micro e pequenos empreendedores já utilizam alguma ferramenta de IA no seu dia a dia, o número cai para 46% quando se trata do uso da tecnologia nos processos de negócios.

— A maior parte usa aplicações de marketing, comunicação e divulgação dos negócios — explica o economista Marco Aurélio Bedê, analista do Sebrae Nacional e coordenador da pesquisa. — Isso acontece porque a demanda imediata nas empresas de menor porte são as vendas, por uma questão de sobrevivência.

O perfil de uso varia conforme o porte das empresas. Bedê observa que, à medida que os negócios evoluem e as empresas ganham musculatura, a inteligência artificial é aplicada de modo mais estratégico.

— Quando segmentamos os dados no universo dos Microempreendedores Individuais, o uso em marketing e divulgação chega a 74%, caindo para 59% entre as micro e pequenas empresas. Já entre as médias e grandes predomina o uso da IA em análise de dados.

‘É preciso testar’
Para Bedê, mesmo com recursos limitados muitas vezes ao uso de ferramentas gratuitas, os pequenos empreendedores têm muito a ganhar com a inteligência artificial.

— Quando você faz uma consulta jurídica simples ou redige um orçamento com uma ferramenta como o Claude ou ChatGPT, você está simplificando sua rotina, reduzindo custos e melhorando potencialmente a qualidade na tomada de decisões — enumera.

Por isso mesmo, o analista vê a educação dos empreendedores como fundamental para que aproveitem os benefícios da tecnologia. Segundo ele, o interesse do público é grande.

— Os cursos de IA do Sebrae já atenderam mais de um milhão de pessoas até o fim do ano passado, mas o potencial é muito maior. São 25 milhões de MEIs, microempresários e empresas de pequeno porte que podem evoluir no uso da inteligência artificial — diz.

A demanda por soluções de IA entre as pequenas empresas também chama a atenção das gigantes de tecnologia. Gustavo Bastos, vice-presidente de Plataformas da TOTVS, observa que as empresas precisam deixar de usar a inteligência artificial no CPF e aplicar a tecnologia no CNPJ.

— Hoje, o que temos, e não só nas pequenas e médias, são funcionários usando IA para cumprir suas funções, sem uma visão estratégica sobre os processos por parte das empresas — explica o executivo, observando que o impacto da IA é ainda maior para os pequenos e médios. — É preciso testar, porque o seu concorrente já está fazendo e você vai acabar perdendo terreno.

Mas isso não significa precipitação. Para Bastos, as PME devem escolher bem os casos de uso e medir efetivamente o retorno.

— Não se trata de usar inteligência artificial porque é uma moda. Você precisa escolher um caso de uso específico, onde a IA reduza o esforço e o custo para obter o mesmo resultado. Ou obter resultados melhores, com o mesmo nível de esforço e custo — diz.

Também é preciso avaliar cuidadosamente a criticidade de cada processo que será realizado por IA.

— Você pode criar uma ferramenta com 90% de precisão para uma automação fiscal e obter um excelente retorno, mas um único erro pode anular todo o ganho se você levar uma multa — continua Bastos. — Por isso mesmo é necessária uma governança que mantenha a eficiência de custos e a segurança, precisão e efetividade dos processos. Sem nunca prescindir da inteligência humana aliada à inteligência artificial.

Bastos acrescenta que, para que a IA seja aplicada com sucesso aos negócios, é fundamental ter dados bem organizados.

— O ideal é sanear as bases de dados antes de começar, contar com sistemas em suas últimas versões— diz.

Segundo ele, a TOTVS tem buscado inserir recursos de IA em seus produtos para todos os segmentos e recentemente lançou uma plataforma que será usada para o desenvolvimento de Agentes de IA.

Simplificação
Sobre o potencial dos Agentes de IA para os pequenos negócios, Bedê, do Sebrae, avalia que se trata de uma tecnologia mais sofisticada do que as ferramentas comuns de IA. Para serem adotados em massa entre as pequenas empresas, eles precisam ser simplificados.

Já David Dias, líder de IA para a América Latina na EY, observa que os ganhos são claros. Ele conta o caso de um empreiteiro brasileiro na Austrália, que passou a usar IA para gerar contratos mais bem-estruturados e propostas mais atraentes.

— Em poucos meses isso gerou um crescimento de 20% a 25% nas vendas — diz Dias, destacando que, sempre que possível, pequenos empreendedores devem pensar grande a respeito da tecnologia. — A IA abre a possibilidade de criar unicórnios, empresas que valem US$ 1 bilhão, com uma única pessoa.